A
cidade de Mairi, mesmo com o clima político a flor da pele,
parou para assistir o globo reporte desta sexta-feira, 05 de
outubro, uma edição especial relatando sobre a timidez, a
abertura do programa já foi com cenas da Cidade de Mairi, A
Jovem a Edmara Pires de Carvalho foi umas entrevistadas pela
equipe de reportagem, onde segundo ela diminuiu a timidez em
começar a sair e fazer novas amizades. Veja a seguir a
reportagem completa:
A paisagem típica nordestina avisa que já estamos chegando.
Lá está a pequena cidade de Mairi, no interior da Bahia. O
clima é de festa. O ritmo cadenciado do desfile escolar
contagia todo mundo.
E advinha quem abre alas? A timidez. Isto mesmo: é a Edmara
Pires de Carvalho levando o estandarte. Pra estar aqui, ela
teve que fazer um certo esforço, deixar a inibição um
pouquinho de lado. E acha que valeu a pena.
“Eu comecei a me soltar mais, a sair, a fazer novas
amizades”, contou Edmara Pires de Carvalho, de 18 anos.
Lição que ela aprendeu na escola. Não está nos livros, mas
nas atividades do dia a dia. O colégio público onde estuda
incentiva a participação dos tímidos.
Hoje é um dia especial. Os alunos do ensino médio tiveram
que preparar uma homenagem pelo centenário de nascimento do
escritor baiano Jorge Amado.
À medida que os colegas se apresentavam, Fernanda ia ficando
nervosa. Ela teve que falar sobre uma personagem. E ela
conseguiu. Mas no grupo ao lado, Paula era a mais tímida.
Quando a colega terminou de falar. Paula ficou calada. Na
vez dela, não disse o texto. Foi salva pelo gongo, hora do
recreio.
Mas não teve problema. Ela tentou, já foi um grande passo. E
ficou tranquila por não ter sido criticada, como já
aconteceu.
“Qual é o seu sonho em relação à timidez?”, perguntou o
repórter Ismar Madeira.
“Em relação à timidez? Assim, conseguir chegar a minha meta,
não ser mais tímida. Conseguir domar a minha timidez”, disse
Paula Araújo dos Santos.
Paula é abraçada, incentivada pelos professores. Esse
trabalho com os tímidos começou há exatamente seis anos,
quando as professoras passaram a dar mais atenção às
diferenças de temperamento dos alunos.
“O tímido ele deixa de interagir em sala de aula, quando ele
não interage isso dificulta o processo de aprendizagem”,
afirmou Silvana da Silva Cerqueira, vice-diretora.
Na sala de aula, dá pra ver bem essa diferença. Afinal, quem
é que não nota os alunos mais agitados, barulhentos até. E
que são participativos, naturalmente chamam a atenção? Mas
existe uma outra parte da turma que é mais calada. Neste
grupo estão os tímidos. Muitas vezes, praticamente
invisíveis. Mas basta um olhar mais atento pra perceber que
eles estão ali.
Lucas e Tarcísio gostam de passar despercebidos no meio da
turma. Não se consideram tímidos, mas calados. Quando a sala
está cheia preferem não abrir a boca.
“Quando tem vontade de perguntar. Realmente a gente espera
ver se a resposta sai”, contou Tarcísio Nunes, 16 anos.
É por isso, entre outras coisas, que a timidez pode
prejudicar o rendimento escolar. Além de ficar em dúvida por
não perguntar, o aluno costuma sofrer emocionalmente. Em
Mato Grosso, Janaína viveu esta experiência quando criança e
adolescente e não teve ajuda na escola.
“Você poderia ter sido mais feliz na escola?”, perguntou o
repórter.
“Ah, eu acho que sim porque eu teria mais amigos, teria mais
amizade. Eu queria, eu tinha muita vontade sim, mas eu tinha
muita vergonha na escola, eu tinha muita vergonha”,
respondeu Janaína.
Na faculdade de pedagogia, resolveu fazer o trabalho de
conclusão de curso sobre a timidez dos alunos no ensino
fundamental. Percebeu que o problema não são as notas. A
maioria fica dentro da média. Mas um outro aprendizado
importante pode ficar comprometido: o da socialização.
“Você não está sozinho, você vive numa sociedade e a escola,
ela faz parte da sociedade, ela também é um espaço social. E
você tem que trabalhar, além de todas as outras demandas,
também essa socialização, buscar alternativas,
metodologias”, afirmou Fátima Aparecida da Silva Ioka,
professora universitária.
O trabalho de conclusão de curso de Janaína aponta que é
preciso enxergar os tímidos.
“É difícil sim pro professor porque são muitas crianças numa
sala de aula, mas há metodologias diferenciadas que podem
auxiliar essas crianças, como por exemplo, uma brincadeira,
uma dinâmica, conversar com a criança, sentar ao lado,
perguntar ‘o que aconteceu?’, ‘você está bem?’. Chamar os
pais pra conversar”, ressaltou Janaína.
Na escola de Mairi, na Bahia, os professores mudaram algumas
regras pra favorecer a inclusão dos tímidos. Na formação das
turmas, por exemplo, os vínculos afetivos são um fator
importante. Os alunos que se identificam mais uns com os
outros ficam na mesma sala.
“A gente teve caso assim de aluno até desesperar porque iria
ficar numa turma onde não conhecia ninguém. Então o cuidado
da gente é desde a chegada do aluno”, contou Silvana,
vice-diretora.
Lucas e Tarcísio se conhecem desde os três anos de idade.
Vieram pra esta escola neste ano e estão percebendo a
diferença. Sentem-se mais encorajados para enfrentar os
desafios nas atividades da turma.
“Às vezes o professor vem diretamente à gente e conversa,
tenta a gente apresentar trabalho, conhecer, apresentações
na frente de todo mundo na sala de aula”, revelou Lucas
Araújo dos Santos, 17 anos.
“Aí a gente se entrosa bem mais com o pessoal do que ficar
só eu e uma pessoa, por exemplo”, completou Tarcísio.
O Lucas é irmão da Anne Louise e da Paula, a aluna que ficou
nervosa na apresentação sobre Jorge Amado. Em casa, a
família apoia as iniciativas da escola. Os pais também foram
tímidos.
“Me achava feia, me olhava no espelho e dizia ‘meu Deus,
será que há alguma coisa diferente comigo? Por que isso? Por
que essa timidez?’”, disse Vanusa Bellas, professora.
A baixa autoestima é uma das características da timidez. Seu
Sílvio diz que também se achava feio.
“Eu ficava no fundo da sala de aula e usava um chapéu,
porque eu me achava muito feio”, contou Sílvio Barbosa dos
Santos, militar reformado.
“Ele era tão tímido que eu que paquerei ele”, lembrou Vanusa.
“O temperamento é a parte da personalidade da gente que tem
mais ligação com as características biológicas, o que a
gente herda de pai e mãe”, afirmou Diogo Lara, psiquiatra da
PUC/RS.
“Então filhos de tímidos tem mais chance de serem tímidos
também não só pelo convívio, mas também pelos genes que
carregam?”, perguntou o repórter.
“Certamente isso já pode ser observado de criança e alguns
estudos de adoção mostram isso, crianças filhos de pais
tímidos que foram adotadas por famílias mais extrovertidas
continuam carregando alguns traços dessa timidez”, respondeu
Diogo.
Mas os especialistas acreditam que apesar da herança
genética, a educação e o ambiente em que a pessoa vive podem
reduzir ou aumentar a timidez. Para dona Vanusa, o pior foi
na escola.
“Eu sofri preconceitos, as pessoas olhavam pra mim era
apelidos, criticas”, contou Vanusa.
“A criança vai internalizando não só uma baixa autoestima,
mas crenças muito negativas acerca dela mesma. Então, ela
vai começando a se retrair”, afirmou Carolina Lisboa,
psicóloga e pesquisadora de bullying.
A psicóloga Carolina Lisboa entrevistou crianças em escolas
públicas de Porto Alegre e de três cidades próximas e
avaliou a relação entre bullying e timidez.
“A criança tímida, ela pode estar mais suscetível para os
agressores, de virar uma chacota e começar a sofrer o
bullying. Assim como o bullying sistemático pode e gera um
retraimento social, um déficit em habilidades sociais e uma
timidez”, explicou Carolina Lisboa.
Mudanças bruscas devem ser observadas. Dona Vanusa e a Paula
estão hoje fazendo terapia, com psicólogo. E, na escola, a
jovem estudante vai chegando mais perto de atingir o sonho
de domar a timidez. Lembra que ela não tinha conseguido
dizer o texto numa apresentação sobre o escritor Jorge
Amado? Pois a Paula quis tentar de novo